Para seus fiéis, o lulismo é
símbolo do resgate dos pobres e trouxe uma nova era à política brasileira. Para
adversários, há nele muito de propaganda e seu destino é sumir quando seu
protagonista sair de cena. Entre os dois extremos, o cientista político André
Singer acaba de lançar o livro Os Sentidos do Lulismo - no qual sustenta que o
fenômeno é mais profundo. É fruto de um importante realinhamento eleitoral no
País, que obriga ao reposicionamento de outras forças políticas. E mais: tem
uma longa vida pela frente.
Em plena guerra eleitoral, com
mais de 20 partidos disputando 5.565 prefeituras, azarões liderando pesquisas e
completa ausência de debate ideológico, o livro chega como uma boa provocação.
"O lulismo é recente e seu sentido histórico não se fixou", adverte o
autor, que foi porta-voz de Lula no primeiro mandato. Ele relata, com fartos
números e tabelas, como foi a construção desse novo "ismo" e qual
peso ele terá na história do País.
Primeiro, as amplas políticas
sociais iniciadas em 2003 beneficiaram um imenso subproletariado que era
conservador e passou a apoiar o presidente. Segundo, o mensalão afastou a
classe média de Lula. Surge então uma nova paisagem política. "No lulismo
a polarização se dá entre ricos e pobres, não entre esquerda e direita",
avisa o autor. E o novo realinhamento eleitoral "tornou necessário o
reposicionamento das esquerdas e de outros segmentos ideológicos".
Reformismo fraco. Como se
percebe, o cerne do estudo é o impacto de políticas sociais no quadro
eleitoral. Ou seja, vão se decepcionar os que esperam de suas 276 páginas
críticas ao mensalão, ao abandono dos ideais socialistas, a acordos pouco
republicanos. Mas não faltam provocações. Para começar, ele define o lulismo
como "mudança e permanência" e "combate à pobreza com manutenção
da ordem". O movimento só se firmou por ter adotado o "reformismo
fraco" - um conjunto de políticas moderadas, "sem confrontar o
capital". Reformismo fraco é, por exemplo, dar crédito consignado em vez
de taxar as fortunas. É dar reajustes modestos ao salário mínimo. É não mexer
na legislação financeira. E é, por fim, jogar para o futuro o desafio maior da
redução das desigualdades. Não por acaso, o subtítulo do livro é "Reforma
Gradual e Pacto Conservador".
Segundo o autor, o lulismo só
deu certo porque, entre 2003 e 2008, o Brasil foi beneficiado pelos bons ventos
da economia mundial, que abarrotaram os cofres do Tesouro e permitiram a Lula,
ao mesmo tempo, ser generoso com os pobres e "acalmar" os meios
financeiros mantendo superávits altos e inflação baixa. Mas é um erro, diz ele,
reduzir o lulismo a um reflexo da economia mundial.
"Foi a fortuna da
conjuntura internacional e a virtù de apostar na redução da pobreza com
ativação do mercado interno que produziu o suporte material do lulismo",
afirma o autor.
As teses de Singer são promessa
de polêmica. "Lulismo é um conceito equívoco", adverte o cientista
político Aldo Fornazieri. Rigoroso na conceituação de um "ismo", ele
diz que Lula "não deixou nem teve intenção de legar um corpo doutrinário
dessa natureza". Seu colega Rudá Ricci escreveu que o fenômeno "é
difuso' e "se desgasta na falta de nitidez". Para o historiador
Carlos Guilherme Mota, o lulismo "ficou historicamente datado", pois
criou "uma visão conciliadora da vida social" que ele prefere chamar
de neopopulismo.
Singer se defende: a vitória de
Dilma Rousseff em 2010 já é uma evidência do realinhamento de que fala no
livro. A grande ameaça, de fato, seria uma forte crise econômica, se ela
interrompesse as políticas sociais - que, afinal, já duraram uma década.
GABRIEL MANZANO - O Estado de S.Paulo

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