Como secretário de Habitação do
Rio de Janeiro, entre 1993 e 2000, o arquiteto sérgio Magalhães concebeu o
projeto Favela-Bairro, que previa a urbanização das favelas. Recém-empossado
como presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Magalhães continua
preocupado com a relação entre o uso dos espaços nas cidades brasileiras e a
qualidade dos serviços públicos. Para ele, as cidades brasileiras sofrem com a
baixa densidade: quanto mais espalhados os habitantes pelo espaço urbano, mais
caro e difícil é levar os serviços públicos a eles. Magalhães é um crítico do
projeto olímpico do Rio, que, segundo ele, reincide nesse problema. Professor
da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
ele recebeu ÉPOCA para esta entrevista numa antiga casa de bondes da Zona Sul
da cidade, sede do IAB e resquício de uma era em que o país ainda não
abandonara o transporte sobre trilhos em benefício dos automóveis.
ÉPOCA – O senhor faz críticas às
intervenções urbanísticas feitas no Rio de Janeiro para preparar a cidade para
a Olimpíada de 2016. Quais são os problemas do projeto olímpico?
Sérgio Magalhães – O
projeto estimula a baixa densidade urbana. O que aconteceu no Rio? Depois de
deixar de ser capital federal, a cidade cresceu três vezes em área ocupada,
enquanto a população nem chegou a dobrar. Isso aconteceu em todas as cidades
brasileiras, em benefício do automóvel e do ônibus. Com o fim do sistema de
transporte coletivo urbano por trilhos, por trens e bondes, as cidades se
expandiram porque deixaram de se organizar ao redor das linhas. Os pneus entram
em qualquer lugar. Com trens e bondes, isso é mais difícil. Agora a população
das cidades brasileiras tende a estabilizar. Quanto mais nos expandirmos, mais
difícil será manter a qualidade de vida. As pessoas, porém, ainda estão no
oba-oba do crescimento infinito. As cidades não podem se esticar infinitamente.
Não temos recursos infinitos.
– O que poderia ter sido
planejado de forma diferente?
Magalhães – Defendi
a concentração da maior parte possível dos equipamentos olímpicos no Porto do
Rio. Lá, caberia tudo. Quando a candidatura do Rio foi apresentada, não havia
um entendimento entre as esferas municipal, estadual e federal que
possibilitaria usar aquele espaço. Nas circunstâncias, não havia essa opção.
Depois que virou uma possibilidade, o certo seria levar as coisas para lá. (A
maior parte das instalações olímpicas no Rio ficará longe do centro da cidade –
na Zona Norte ou na Barra da Tijuca.) Para a
Olimpíada, uma grande intervenção necessária é despoluir a Baía de Guanabara.
Essa medida pode mudar um destino que parece inexorável para o Rio: a expansão
em direção ao subúrbio e à Zona Oeste. A baía articula a região metropolitana.
– A alta densidade costuma
ser associada à má qualidade de vida, poluição, engarrafamentos e outros
problemas urbanos. Por que o senhor a defende como algo bom para a cidade?
Magalhães –
Densidade não quer dizer edifício alto, espigão. Quer dizer mais gente num
território onde os serviços públicos são viáveis. Paris é uma cidade muito
densa, mas não tem prédios altos. No Rio, os quarteirões entre Ipanema e Lagoa,
com prédios de cinco andares, têm alta densidade, mas alta qualidade de vida.
Precisamos de cidades compactas. Assim, você cria espaços de convívio, com
serviços de mais qualidade. Serviço público custa muito. Com as pessoas
espalhadas, é mais difícil atendê-las. Na prática, só se atende quem tem mais
poder, as áreas mais ricas. Tome o exemplo da Barra da Tijuca, no Rio, que tem
baixíssima densidade.
– Para a Olimpíada, o Rio
está construindo os Bus Rapid Tranportation (BRTs), corredores de ônibus, com
estações, apelidados de “metrô sobre rodas”. O que o senhor acha desse projeto?
Magalhães – Os BRTs
são um dos modos possíveis de transporte coletivo. A Colômbia tem usado. Em
Curitiba, caso mais notório no Brasil, é uma experiência bem-sucedida. Lá, os
trechos mais importantes agora virarão metrô. O importante para os BRTs, como
transporte de massa, é passar onde as pessoas estão – por mais óbvio que isso
pareça. A Transcarioca (que ligará a Barra da Tijuca ao Aeroporto do Galeão,
na Ilha do Governador) é boa. A Transoeste (que ligará os bairros de
Campo Grande e Santa Cruz, na Zona Oeste, à Barra da Tijuca) nem tanto,
porque passa por áreas vazias e desertas e pode estimular a ocupação de baixa
densidade.
– A zona portuária do Rio é
uma região vazia e deteriorada no centro da cidade, um problema que ocorre em
outras grandes cidades brasileiras. Como enfrentá-lo?
Magalhães – Na zona
portuária há inúmeros prédios gigantescos desocupados. São áreas públicas ou de
irmandades religiosas, de quando o Rio era capital federal. Há também uma
infinidade de pequenos imóveis abandonados. Um imóvel abandonado deteriora a
vizinhança. É uma contaminação, uma doença. Ele acaba com seu entorno. Se forem
vários, pior ainda. É preciso reocupar os centros das cidades. Para que um
lugar tenha vida, é preciso que algo funcione quando o comércio e os serviços
são interrompidos. É a habitação que faz isso.
O Minha Casa Minha Vida é
arcaico. Em vez das famílias, o governo e as empreiteiras decidem o que fazer,
onde e em que condições"
– Qual o maior desafio para
o urbanismo hoje no Brasil?
Magalhães – É a
necessidade de tornar a cidade disponível para toda a população. O Brasil
cresceu nas últimas décadas fazendo a cidade subsidiar seu desenvolvimento, mas
nunca a tratou de forma central. Os capitais investidos em moradia foram canalizados
para a indústria. Houve crescimento demográfico sem políticas de habitação. Em
nome da indústria automobilística, o sistema de transporte sobre trilhos, com
bondes e trens urbanos, foi desconstruído. Também veio o estímulo, nos anos
1960, ao agronegócio – mas com uma legislação trabalhista que acabou expulsando
as pessoas do campo. Elas foram recebidas na cidade sem políticas de habitação,
transporte e saneamento. Essas pessoas tiveram de ocupar a cidade da forma mais
predatória, a ocupação de baixa densidade, em locais sem infraestrutura,
criando enormes periferias. Mesmo assim, a cidade é vista como o lugar do
futuro pelas pessoas. No século XXI, o desenvolvimento é pautado pelo
conhecimento, pela educação, pelas invenções e pela criatividade. Tudo isso
pressupõe uma vida urbana. É a cidade que dá condições para o conhecimento
florescer. Para isso, precisamos democratizar nossas cidades, conquistando
transporte adequado, superando nosso enorme passivo ambiental.
– Que intervenção o senhor
faria nas cidades brasileiras?
Magalhães – Como
medida urgente, melhoraria o transporte, claro. É desumano o que as pessoas
passam. Aqui no Rio, os trens poderiam ser transformados em metrô sem que seja
necessário criar novas linhas. Por um preço mais barato, sem novos corredores.
Os trens atendem 70% da zona metropolitana. Outro ponto seria conter a expansão
da cidade. A cidade sem densidade é inviável.
ÉPOCA – Como o senhor avalia o programa do governo federal Minha Casa Minha
Vida?
Magalhães – É arcaico. Em vez das famílias, o governo e as empreiteiras
decidem o que fazer, onde e em que condições. As famílias deveriam ter
autonomia para escolher onde e como morar – contando com financiamento. Hoje, o
morador tem de aceitar o que é oferecido. Do ponto de vista urbanístico, o que
é oferecido é muito antigo. São grandes conjuntos residenciais em lugares muito
distantes, sem infraestrutura, o que faz a cidade perder qualidade. É
importante existir financiamento e participação do governo. Mas hoje é
considerado que os recursos são um favor do governo para a família. Está
errado. As pessoas vivem e vendem sua força de trabalho na cidade, gastando
muito dinheiro com moradia. No mundo desenvolvido, o cidadão não precisa de um
novo programa de financiamento para comprar uma casa. Quando quiser, sabe que o
dinheiro estará disponível: para comprar, construir, fazer o que quiser.
– Como o senhor vê os novos
edifícios construídos no Brasil?
Magalhães – Não
gosto quando a construção tem muita autonomia. Ela só faz sentido se você olhar
sua relação com o espaço público, como cada edifício se encadeia na proposta de
melhorar a cidade. Essa onda de condomínios fechados é um atraso de vida.
Admito que haja formas de ocupação diferentes – mas acho ruim. Eles degradam o espaço
público, diminuem as áreas de encontro entre as pessoas. Muitos edifícios não
estão atentos para isso. A legislação impõe parâmetros ruins, em desacordo com
a qualidade de vida. Quando um prédio é obrigado a colocar nos primeiros
andares a garagem, a moradia é afastada da rua. E isso cria uma vizinhança
ruim. O olhar das pessoas sobre a rua – e da rua sobre elas – desaparece. O
papel do edifício é ajudar o coletivo.